Tales de Mileto: O Pai da Filosofia e da Ciência Ocidental
Como Tales de Mileto inaugurou uma nova forma de compreender o mundo, abandonando os mitos para buscar respostas na razão, na observação e na investigação da natureza moldando os pilares da filosofia, da ciência e do pensamento ocidental
Pedro Bayma
22/05/2025
Sobre Filosofia
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Por volta do século VI a.C., o mundo que conhecemos como Ocidente ainda engatinhava em suas tentativas de compreender os mistérios da natureza e da existência. Era uma época em que explicações sobrenaturais, mitológicas e religiosas dominavam o imaginário das civilizações. Deuses controlavam as colheitas, os ventos, as estrelas e até o destino dos homens.
Neste contexto, surge a cidade de Mileto, uma próspera colônia grega situada na região da Jônia, atual costa da Turquia. Mileto era um centro comercial, ponto de encontro entre o Ocidente grego e as civilizações do Oriente, como os egípcios, babilônios e persas. O contato com esses povos trouxe não apenas mercadorias, mas também saberes: matemática, astronomia, engenharia e práticas religiosas e místicas.
É nesse caldeirão cultural, onde o comércio se misturava ao saber, que nasceu Tales de Mileto, por volta de 624 a.C.. Tales é considerado, por muitos historiadores, o primeiro filósofo da história ocidental, além de um dos pais da ciência. Sua vida foi marcada por uma busca singular: encontrar uma explicação racional e natural para os fenômenos do mundo, sem recorrer aos deuses ou mitos.
Tales não foi um pensador isolado nem se formou apenas nas praças de Mileto. Ele viajou. É sabido que esteve no Egito, onde aprendeu geometria e conhecimentos astronômicos. Lá, os sacerdotes egípcios já dominavam técnicas avançadas de medição de terras (inclusive para recompor os limites após as enchentes do Nilo) e estudavam os astros com grande precisão.
Também teria visitado a Babilônia, uma civilização que desenvolvia desde cedo a aritmética, a astronomia e técnicas de observação dos céus. Tales não apenas absorveu esses conhecimentos, mas também os reinterpretou sob uma nova perspectiva: buscar causas naturais, princípios racionais e leis universais.
Tales é lembrado por feitos tanto na filosofia quanto nas ciências exatas. Ele foi, antes de tudo, um homem prático e teórico, interessado tanto nos fundamentos da existência quanto na aplicação do saber no cotidiano.
Buscando responder à pergunta: “De que é feito tudo?”. Sua resposta foi que tudo tem origem na água. Para ele, a água era o princípio fundamental (em grego, “arché”) de todas as coisas. Observou que tudo que é vivo depende da umidade, que a água está presente nas transformações da natureza, no ciclo da chuva, dos rios, da evaporação, das plantas e dos seres vivos.
Embora hoje saibamos que a água não é o elemento fundamental de tudo, o que importa aqui não é a resposta, mas o método: pela primeira vez na história ocidental, alguém tentou explicar a realidade por meios naturais, não sobrenaturais.
Ele previu, segundo relatos de Heródoto, um eclipse solar ocorrido em 28 de maio de 585 a.C.. Se isso de fato ocorreu ou se é um mito reforçado posteriormente, ainda é debatido. Mas o fato é que Tales dominava conhecimentos avançados sobre os ciclos astronômicos.
Introduziu na Grécia conhecimentos de geometria egípcia, e dele derivam alguns dos primeiros teoremas da geometria plana, o famoso Teorema de Tales, que na verdade tem uma formulação diferente da que se ensina hoje com esse nome.
Também é dito que usando seus conhecimentos de geometria, calculou a altura das pirâmides, medindo suas sombras e comparando com a sombra de uma vara no mesmo instante.
Tales fundou a chamada Escola Jônica, considerada a primeira corrente filosófica da Grécia e da civilização ocidental. Essa escola se caracterizava pela busca de explicações naturalistas e racionalistas, afastando-se dos mitos e das interpretações teológicas.
Os membros da Escola Jônica compartilhavam a ideia de que o mundo tem uma ordem própria, que pode ser compreendida pelo raciocínio humano. A natureza (em grego, “physis”) passou a ser objeto de investigação.
Foi o precursor, e dele derivaram outros grandes nomes, como:
- Anaximandro (610–547 a.C.): Discípulo direto de Tales, propôs que o princípio de tudo não era a água, mas algo indefinido e eterno, chamado “ápeiron”, que significa ilimitado ou infinito. É considerado o primeiro cosmólogo e também realizou avanços na cartografia e na astronomia.
- Anaxímenes (588–524 a.C.): Provavelmente discípulo de Anaximandro, defendia que o princípio de tudo era o ar, que, ao se condensar ou rarefazer, dava origem aos diversos elementos e formas da natureza.
Tales de Mileto não é apenas uma figura do passado; seu legado moldou o próprio nascimento daquilo que hoje chamamos de ciência, filosofia e pensamento racional. Ele nos ensinou que o mundo não é um mistério indecifrável, governado apenas por vontades divinas, mas um lugar que pode ser compreendido, estudado e explicado por meio de observação, raciocínio e lógica.